Você usa a comida como recompensa?

26 de junho de 2012
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Bolo com cobertura doce de frutas vermelhasExiste um circuito de recompensa no nosso cérebro chamado sistema dopaminérgico mesolímbico. Esse circuito é responsável pela sensação de prazer e é importante no processo de aprendizado e no comportamento alimentar.

Esse circuito é formado por diversas regiões do cérebro que se comunicam entre si. Essas regiões incluem a área tegmentar ventral, núcleo acumbens, amígdala, hipocampo e córtex orbitofrontal. Grande parte do conhecimento que temos hoje sobre esse circuito vem de estudos com pessoas viciadas em drogas, já que a dependência química das drogas envolve uma forte ativação desse circuito, que é o que causa a sensação de prazer relatada pelos usuários de drogas.

As atividades que geram prazer, como sexo, alimentação e relacionamentos afetivos, ativam esse circuito. Quando uma criança faz algo que seus pais apreciam e recebe carinho (reforço positivo), ela aprende que esse comportamento gera prazer. Por esse motivo esse sistema é importante no aprendizado e envolve regiões do cérebro ligadas às emoções e à memória (a amígdala e o hipocampo).

Qualquer pessoa saudável sente prazer quando come. Essa é uma resposta adaptativa fundamental, já que a nossa sobrevivência depende da alimentação.

Em geral, os alimentos ricos em gordura são considerados muito saborosos (palatáveis) e geram mais sensação de prazer. Essa sensação de prazer muitas vezes faz com que comamos mais do que o necessário. É a típica frase “estou comendo de gulodice” ou “não estou mais com fome, mas não consigo parar de comer”. Não é à toa que ouvimos “sou viciado em refrigerante”, “sou viciada em frituras” ou “sou chocólatra“.

Sabe-se que os alimentos industrializados em geral são ricos em gorduras e açúcares, o que faz com que muitas pessoas acabem comendo mais do que o necessário. Da mesma forma que o uso crônico de drogas, o consumo crônico de alimentos muito calóricos e gordurosos pode influenciar esse circuito cerebral, reforçando o comportamento de recompensa ligado à ingestão de doces e comidas gordurosas.

Quando associamos isso tudo a problemas de humor, aí é que a coisa complica. Em uma época em que as pessoas têm um ritmo de vida muito estressante e a depressão é uma doença comum, a busca de prazer com o objetivo de aliviar o sofrimento se torna algo frequente. Teorias sobre a personalidade apontam que algumas pessoas são mais susceptíveis a cair nessa armadilha. Em particular, as mulheres estão sob maior risco.

Estudos mostram que a maioria das pessoas sabem que o equilíbrio, a variedade e a moderação são fatores chave para a alimentação saudável. Da mesma forma, a maioria das pessoas não consegue seguir essas mesmas recomendações em seu dia-a-dia.

Preste atenção se você ou se pessoas que você conhece usam o alimento como forma de recompensa, pois isso pode ser a causa de mais problemas. Auxílio profissional Nutricional e Psicoterápico pode ser de grande auxílio nestes casos.

É importante entendermos toda a complexidade que existe por trás do “simples” ato de comer, para que possamos atacar na raiz os problemas alimentares que nós mesmos causamos com nossos hábitos de vida não saudáveis.

Referência: Davis, JF et al. Orexigenic Hypothalamic Peptides Behavior and Feeding. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, 2011. p. 355-369.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

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