TV engorda?

8 de novembro de 2012
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Homem gordo assistindo TVAcredita-se que muitas crianças comem somente o que querem e diversos pais enfrentam sérios problemas para lidar com esse tipo de comportamento. Nesse contexto, vários estudos têm indicado que a televisão exerce forte influência sobre as preferências alimentares, principalmente nas crianças e adolescentes.

Há décadas o hábito de assistir TV tem sido relacionado com diversos problemas, como comportamento violento, desempenho escolar ruim e obesidade. Dado que a televisão ainda é uma fonte de entretenimento universalmente difundida, principalmente entre crianças e adolescentes, este é um fato muito preocupante.

Cerca de 60% das crianças obesas e 80% dos adolescentes obesos provavelmente serão adultos obesos. Desta forma, a obesidade infantil está relacionada, no longo prazo, com problemas socioeconômicos, alguns tipos de câncer, depressão, diabetes, hipertensão, colesterol alto (dislipidemia), desgaste nos joelhos (artrose) e mortalidade prematura.

Sabe-se que o hábito de comer assistindo televisão está relacionado com um significativo aumento do consumo de alimentos calóricos. Além disso, o tipo de alimento que se come em frente à televisão tipicamente consiste de guloseimas, como pipoca, salgadinhos, doces, chocolate, sorvete e refrigerante. Alguns estudos mostram que muitas crianças comem mais de 20% do total de calorias diárias em frente da TV.

Não é só o fato de as pessoas não fazem atividade física enquanto assistem televisão que faz esse hábito estar relacionado com o ganho de peso. Os comerciais de alimentos e bebidas têm forte influência sobre as escolhas alimentares e parecem ser um importante fator para a associação entre televisão e obesidade.

A televisão é o principal meio usado para promover comidas e bebidas e tipicamente os anúncios são de produtos não saudáveis. Acredita-se que, para cada dólar gasto pela Organização Mundial da Saúde, a indústria de alimentos gasta 500 dólares para promover a venda de produtos processados. Só no Brasil, no ano de 2006, a indústria de alimentos e refrigerantes gastou mais de um bilhão e meio de reais em investimento publicitário.

Estudos mostram que crianças que assistem a desenhos animados com propagandas de comida nos intervalos comerciais tendem a pedir esses produtos anunciados quando estão em supermercados com seus pais. Além disso, essas crianças tendem a pedir os produtos da marca que foi anunciada, e não produtos do tipo que foi anunciado.

Não somente a exposição a propagandas de alimentos na televisão está associado ao aumento do consumo calórico, como esse efeito é mais importante em crianças que já estão acima do peso. Ou seja, crianças com sobrepeso e obesidade são mais susceptíveis à influência dessas propagandas.

Por outro lado, tem-se demonstrado que comerciais que promovem o consumo de alimentos saudáveis têm a capacidade de influenciar tanto as escolhas alimentares como as crenças e atitudes a respeito dos alimentos. Além disso, um estudo prospectivo controlado mostrou que as intervenções que têm por objetivo reduzir o tempo que as pessoas assistem televisão podem ser eficientes tanto na redução do peso do sedentarismo.

Nos últimos anos temos visto um aumento da quantidade de programas de televisão informativos, com conteúdo educacional e politicamente corretos. Sem dúvida que esses programas já são uma evolução. Entretanto, é fundamental que os comerciais veiculados nos intervalos também melhorem sua qualidade (no sentido de também serem informativos, com conteúdo educacional e politicamente corretos).

Um passo importante que foi dado nessa direção foi a resolução 24/2010 da Anvisa, que impõe limites para a propaganda de alimentos com muito açúcar, gordura saturada, gordura trans, sódio e bebidas com baixo teor nutricional, como refrigerantes e refrescos artificiais.

Entretanto, esta RDC foi contestada judicialmente pela Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA), que conseguiu suspender a entrada em vigor dessas regras, sob a alegação de que não é função da Anvisa criar regras para a publicidade de alimentos.

Agora cabe a nós, cidadãos e eleitores, exigir dos nossos representantes, por meio dos diversos canais disponíveis da atualidade (como emails, fóruns, mídias sociais, blogs), que a regulamentação da propaganda de alimentos no Brasil seja colocada em prática o mais rápido possível e seja aperfeiçoada continuamente, pois as consequências desse tipo de publicidade já são visíveis há décadas.

Referência: Boyland, EJ and Halford, JCG. Television and Food Choice. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, 2011. p. 973-986.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

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