Reeducação alimentar

12 de novembro de 2012
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hamburguer com batatas fritasEm vez de tentar fazer dietas temporárias, as pessoas deveriam rever seus hábitos alimentares de forma permanente, em um processo de reeducação alimentar.

As escolhas alimentares das pessoas afetam diretamente sua saúde e a de seus familiares e, indiretamente, o meio ambiente, os negócios, a cultura e a economia em vários níveis (local, regional, nacional e global).

Estudos que avaliam as mudanças do hábito alimentar, indicam que as pessoa frequentemente têm problemas em manter novos comportamentos por diversos fatores. Com o objetivo de entender melhor esses fatores, uma equipe de pesquisadores desenvolveu um modelo de processo mental de escolha de alimentos (diagrama abaixo), com quatro componentes:

  • Experiências que ocorreram ao longo da vida da pessoa
  • Influências que atuam sobre o indivíduo
  • Sistema pessoal de processos mentais
  • Comportamento alimentar propriamente dito

 

Processo mental de escolha de alimentos

 

As experiências representam o contexto histórico, social e geográfico que afetam o modo da pessoa pensar, sentir e agir com relação aos alimentos e ao ato de comer. São todos eventos que ocorreram ao longo da vida da pessoa e que trazem boas e más recordações envolvendo alimentos.

Como resultado dessas experiências, a escolha alimentar acaba sendo moldada por diversos fatores que exercem influência sobre o indivíduo. Essas influências podes ser classificadas em:

  • Ideais: representam o conjunto de significados culturais e padrões que a pessoa desenvolveu ao longo de suas experiências sociais e culturais (ex: uma pessoa adepta ao veganismo é contra a exploração dos animais, sendo este um ideal de vida dela).
  • Fatores pessoais: envolvem as características do indivíduo, como fatores fisiológicos (percepções sensoriais, condições de saúde) e características psicológicas (preferências, personalidade, identidade).
  •  Recursos: são os bens disponíveis e que possibilitam as escolhas alimentares, incluindo recursos tangíveis (dinheiro, facilidades, equipamentos) e intangíveis (tempo, conhecimento, habilidades).
  • Fatores sociais: são as relações com outras pessoas e que afetam as escolhas, como os pais, cônjuge, filhos, irmãos, outros parentes, colegas de trabalho, empregadores, empregados e amigos.
  • Contexto: são os fatores ambientais, incluindo o físico (clima, geografia, espaço onde a pessoa mora, local de trabalho), o sistema de produção e distribuição de alimentos (agricultura regional, fábricas, supermercados, lanchonetes, restaurantes) e as informações disponíveis (propagandas, informações sobre Saúde e Nutrição).

O sistema pessoal considera como as pessoas dão sentido aos alimentos e ao ato de comer, dadas as oportunidades e limites dos fatores influenciadores. Esse sentido é elaborado por meio de seis processos:

  • Construção dos valores das escolhas alimentares
  • Negociação dos valores das escolhas alimentares
  • Classificação dos alimentos
  • Formação de estratégias para implementar os valores das escolhas alimentares
  • Formação de roteiros (scripts) alimentares
  • Formação de rotinas alimentares

Os valores das escolhas alimentares são importantes considerações que uma pessoa tem a respeito dos alimentos e do ato de comer. Categorias comuns desses valores são: sabor, saúde, conveniência e gerenciamento de relacionamentos. Outras categorias incluem ética, religião, tradições familiares e ambiente. No processo de construção desses valores, as pessoas podem atribuir significados culturais isolados ou compartilhados para cada um desses valores (por exemplo, as considerações sobre o que é uma alimentação saudável pode variar de uma pessoa para outra).

Embora as pessoas busquem basear suas decisões alimentares em seus valores, suas opções frequentemente envolvem conflitos entre os valores. Podemos dar o exemplo de um alimento considerado mais saudável ser mais caro e dar mais trabalho para preparar. Outro exemplo pode ser uma pessoa abdicar de comer o que mais gosta em detrimento das preferências dos seus familiares. Dessa forma, as pessoas frequentemente têm de fazer negociações entre seus valores de escolhas alimentares em diferentes situações.

Os sistemas de classificação dos alimentos auxiliam as pessoas a tomarem decisões. Essas classificações podem ser feitas com base na perspectiva cultural (alimentos simbólicos, alimentos que indicam alto status social), social (alimentos que os amigos comem ou que os filhos gostam), contextuais (alimentos disponíveis naquele contexto) e pessoais (alimentos preferidos). Enquanto os profissionais da Saúde tendem a classificar os alimentos baseados em suas propriedades nutricionais, as pessoas em geral usam vários sistemas de classificação.

As estratégias são as regras e diretrizes que a pessoa desenvolve para atingir seus valores. Usando essas regras as pessoas simplificam as muitas decisões que tem de fazer no dia-a-dia. Exemplos de estratégia são: comer verduras no almoço para melhorar a composição nutricional da refeição; dividir a sobremesa com o cônjuge para economizar dinheiro e consumir menos calorias; e desligar o som do toque do telefone nos jantares em família para evitar interrupções.

Com o objetivo de simplificar o processo de decisão nos episódios alimentares, as pessoas desenvolvem roteiros mentais que guiam seu comportamento. Esses roteiros são esquemas mentais que incluem suas expectativas e planos para agir em determinadas situações. Por exemplo, com base no conjunto de experiências e influências, a pessoa pode tender a preferir um suco de frutas em vez de um refrigerante e isso pode se tornar uma rotina.

As rotinas são repetições de ações, criadas para facilitar a vida. As rotinas são padrões de comportamento que as pessoas frequentemente adotam para prover organização, simplicidade, eficiência e segurança, bem como senso de conforto. As rotinas trazem estabilidade e familiaridade aos eventos diários e sazonais e criam um sentimento de normalidade. Desta forma, as pessoas usam rotinas para diversas finalidades na vida, não somente para as escolhas alimentares.

Enfim, o comportamento alimentar inclui tanto as ações relacionadas aos alimentos como os detalhes situacionais nos quais a ação ocorre. As ações relacionadas ao alimento são todas as atitudes envolvidas nos atos de adquirir o alimento, prepará-lo, servi-lo, comê-lo, guardar as sobras e arrumar os utensílios. Os detalhes situacionais envolvem não somente que alimento foi consumido, mas quem estava presente, onde e quando a ação ocorreu, o que mais ocorreu junto e que outros fatores foram percebidos pela pessoa.

Este modelo mental proporciona uma forma de organizar os diversos fatores e processos envolvidos no comportamento alimentar. Ele permite que os pesquisadores e profissionais da saúde fiquem atentos à toda complexidade e natureza dinâmica dos pensamentos, sentimentos e atitudes das pessoas em relação à comida.

Durante o processo de reeducação alimentar, buscando a promoção de uma alimentação saudável para uma pessoa, devemos reconhecer que essa pessoa pode estar experimentando situações alimentares complexas em vez de estarem simplesmente comendo e bebendo.

Um inquérito alimentar tradicional geralmente foca a quantidade e qualidade dos alimentos ingeridos, sem dar a devida importância aos fatores que acompanham o episódio alimentar. Quando esse episódio é encontrado repetidas vezes (rotina) em um inquérito, o profissional pode tentar identificar os processos mentais envolvidos (roteiros).

A alteração de um roteiro pode envolver ajustes nos valores pessoais, no sistema de classificação dos alimentos e nas estratégias usadas para colocar em prática as rotinas. Por sua vez, a alteração de uma rotina alimentar pode envolver a alteração de uma sequência de episódios que têm sido estabelecida durante muitos anos, sem falar que algumas alterações no comportamento alimentar muitas vezes dependem de fatores contextuais, como acesso a determinados tipos de alimento.

Além disso, incorporar novos alimentos na rotina de uma pessoa pode envolver atenção e persistência, pois pode haver conflitos e necessidade de negociação com outras pessoas. A pessoa pode perder a sensação de conforto e segurança que os comportamentos estabelecidos há muito tempo proporcionam. assim, o estabelecimento de novas rotinas requer tempo e envolve tentativa e erro.

Referência: Bisogni, CA et al. The Construction of Eating Episodes, Food Scripts, and Food Routines. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, 2011. p. 987-1009.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

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