Probióticos: coadjuvante ou tratamento milagroso?

17 de julho de 2013
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Segundo a Organização Mundial da Saúde, probióticos são microorganismos vivos que quando administrados em quantidades adequadas conferem benefício à saúde do consumidor. Geralmente os probióticos são encontrados em alimentos fermentados, leites fermentados ou são vendidos em cápsulas e sachês, similares à um medicamento.

Os probióticos aumentam a colonização intestinal das cepas ali presentes, alterando a composição da microbiota e também os metabólitos produzidos por ela. Assim, os benefícios que vem sendo descritos envolvem o aumento da produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), modulação da barreira da mucosa intestinal e do sistema imunológico e contrapondo bactérias patogênicas. No entanto, entender a interação entre os probióticos, dieta e seus impactos no hospedeiro é um grande desafio, pois requer compreensão dos mecanismos que ocorrem dentro de uma microbiota que possui mais de 3,3 milhões de genes.

Apesar desta complexa interação entre probióticos-dieta-hospedeiro, os estudos feitos com os probióticos mostraram benefícios relacionados à diminuição no risco de doenças gastrointestinais, assim como suporte na terapia destas doenças; melhora da resposta imunológica e manutenção da saúde geniturinária. Ainda assim, a heterogenicidade da metodologia utilizada nos diversos estudos, assim como os resultados encontrados geram controvérsias.

Uma revisão de metanálise feita pela Cochrane em 2012 (organização muito tradicional em análise de dados) concluiu que o uso de probióticos teve seu efeito mais convincente em seis situações de doença: pouchite (inflamação em bolsa de coleta interna, geralmente feita em pacientes que extraem parte do intestino grosso), diarreia infecciosa, síndrome do intestino irritável (que possui sintomas que alternam entre diarreia e constipação), infecção por Helicobacter pylori, infecção por Clostridium difficili e diarreia decorrente do uso de antibióticos.

Os principais produtos probióticos que mostraram efeito positivo são o chamado VSL#3 (mistura de bactérias ácido láticas e bifidobacterias) e as espécies Lactobacillus rhamnosus GG (LGG), Saccharomyces boulardii, Bifidobacterium infantis, Lactobacillus acidophilus, Lactobacillus casei, Clostridium butyricum, Enterococcus faecum, Lactobacillus plantarium, Bifidobacterium lactis e Lactobacillus acidophilus combinado com Bifidobacterium infantis. Além disso, o efeito probiótico não se restringe apenas à espécie da bactéria utilizada, mas é tão específico, que depende de cada tipo de cepa.

O uso de probióticos também vem sendo muito citado no tratamento da obesidade. No entanto, a maior parte dos estudos que avaliaram este aspecto foi conduzida em ratos. Dentre os resultados mais encontrados estão principalmente redução de peso e da ingestão energética. Outros achados referem-se à melhora na sensibilidade ao hormônio insulina, redução da absorção de triglicerídeos, menores níveis de leptina (hormônio que em situações dismetabólicas gera inflamação celular) e glicose no sangue. Dentre os poucos estudos com seres humanos, um estudo multicêntrico feito com 87 adultos que apresentavam excesso de peso no Japão, observou redução de peso e das gorduras visceral e subcutânea após a administração de probióticos por 12 semanas.

É importante também lembrar-se que o uso de fibras prebióticas contribui para a fermentação e crescimento das bactérias benéficas do intestino. Desse modo, a eficácia dos probióticos parece ser maior quando fornecido estes substratos (prebióticos) para que a colonização seja duradoura. Além disso, o consumo de probiótico merece atenção voltada pra forma com que ele é administrado. Sugere-se que probióticos em cápsulas possuem maior garantia da chegada dos microorganismos ainda vivos no intestino. Em relação aos produtos lácteos, a forma como são armazenados nos estabelecimentos e a variação de temperatura durante o transporte é um fator que possivelmente afete a vida dos microorganismos ali presentes, tornando o produto ineficaz.

Apesar dos efeitos positivos do uso de bactérias e muitas vezes até “milagrosos”, mais estudos ainda são necessários para comprovar a eficácia dos probióticos em diversas situações clínicas e explicar os mecanismos e as cepas envolvidas neste processo. De qualquer forma, é essencial que o uso do probiótico seja acompanhado de uma alimentação equilibrada e saudável. Afinal, existe o beneficio, mas o produto não é milagroso e não substitui a importância de hábitos saudáveis.

Referências:

Ceapa, C. et al. Influence of fermented milk products, prebiotics and probiotics on microbiota composition and health. Best Practice & Research Clinical Gastroenterology, 27 (2013): 139 – 155.

Kovatcheva-Datchary, P. Nutrition, the gut microbiome and the metabolic syndrome. Best Practice & Research Clinical Gastroenterology, 27 (2013) 59 –72.

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Raíssa Antunes

Sobre Raíssa Antunes

Sou nutricionista formada na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Especialista em nutrição aplicada às doenças renais pela UNIFESP e atualmente cursando mestrado na mesma área. Tenho interesse especialmente em assuntos que relacionam alimentação ao estilo de vida.

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