Padrões alimentares relacionados à obesidade

24 de outubro de 2012
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menino comendo salgadinhosNos últimos anos diversos estudos têm tentado identificar padrões alimentares nos indivíduos obesos. Diversos aspectos foram avaliados, como o tamanho das porções, a frequência de consumo, a correlação entre o tamanho da porção e o intervalo até a próxima refeição, a duração da refeição, a susceptibilidade individual à sensação de fome, a duração da saciedade, as atitudes e crenças com relação à comida etc. Entretanto, em geral os resultados são contraditórios e inconclusivos.

Por outro lado, existem estudos clínicos, epidemiológicos e psicométricos que identificaram alguns padrões de comportamento relativamente comuns em pessoas com o sobrepeso e obesidade. São eles: a restrição alimentar cognitiva, a desinibição e o transtorno alimentar noturno.

A restrição alimentar cognitiva é a tendência da pessoa controlar o que come com o objetivo de perder ou manter o peso. Já a desinibição alimentar é o oposto, ou seja, a falta de controle na hora de comer, principalmente quando a pessoa está estressada ou quando está em um banquete. Por sua vez, o transtorno alimentar noturno é o hábito de comer muito à noite, em geral petiscando guloseimas, ter dificuldade para dormir e não ter fome no café da manhã.

Estudos experimentais em humanos mostram que a restrição alimentar cognitiva não se relaciona com um aumento evidente da ingestão calórica, mas a desinibição claramente se relaciona. Esses resultados nos permitem chegar a importantes conclusões clínicas.

A restrição cognitiva pode estar associada à tendência de ter desinibição da ingestão alimentar e é provável que os mais altos graus de índice de massa corporal (IMC) observados em pessoas com comportamento restritivo ocorram naqueles com desinibição concomitante.

Evidências disso vêm de estudos transversais, que mostram que os indivíduos mais gordos foram aqueles com alto grau de desinibição e baixo grau de restrição. Enquanto isso, os indivíduos com alto grau de desinibição e alto grau de restrição tiveram IMCs um pouco mais baixo. Desta forma, parece que a restrição alimentar pode ser uma estratégia mais eficiente de perda e manutenção de peso para os indivíduos com baixo grau de desinibição.

Assim, podemos entender que a associação positiva entre a restrição cognitiva e o índice de massa corpórea é mediado pela tendência à desinibição do consumo de alimentos. Portanto, a restrição extrema e drástica (do tipo controle rígido) facilmente provoca uma disrupção do controle sobre o ato de comer, causando desinibição alimentar e, consequentemente, maior risco de ganho de peso.

Tem sido proposto que o conflito criado por um alto índice de restrição e a presença de alto grau de desinibição exacerba os sintomas de problemas psicológicos. Em outras palavras, pessoas com algo grau de desinibição têm grande propensão para comer muito, facilidade para ganhar peso, gostam muito de comer, preferem alimentos ricos em energia e em geral têm baixo gasto energético por serem comumente sedentários.

Essas pessoas têm uma carga genética desenvolvida durante milhões de anos com o objetivo de economizar energia ao máximo. Esse potencial biológico adaptativo permitiu que nossos antepassados se protegessem de períodos de escassez de alimentos, comendo mais que o necessário quando os alimentos estavam disponíveis, preferindo alimentos com alto conteúdo energético, promovendo a deposição de gordura e evitando gastar energia desnecessariamente sempre que possível. Esse padrão de comportamento foi muito vantajoso para promover a sobrevivência e evolução do ser humano. Por esse motivo, alguns autores sugerem que a desinibição seja chamada de comer oportunístico.

Porém, em um ambiente obesogênico (que tende a engordar as pessoas), o que era uma grande vantagem evolutiva se tornou uma desvantagem, fazendo com que exista uma epidemia de sobrepeso, obesidade e outras doenças metabólicas, como o diabetes, o aumento do colesterol (dislipidemia) e o aumento da pressão (hipertensão arterial).

Esse inevitável conflito entre a predisposição biológica para economizar energia e as forças ambientais de fartura de alimentos pode ser um importante fator para degradação do bem-estar emocional e para a perda da autoestima, principalmente em uma sociedade que valoriza muito a aparência, contribuindo para o aparecimento de transtornos alimentares.

Referência: Adami, GF. Feeding Behavior and Body Mass Index. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, 2011. p. 891-910.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

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