Obesidade e preconceito

14 de outubro de 2012
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mulher gordaExistem diversas evidências do estigma social da obesidade. Estudos mostram que pessoas com sobrepeso e obesidade têm menor chance de conseguir empregos do que pessoas magras, mesmo que sejam igualmente qualificadas e que os cargos não dependam do porte físico.

As pessoas expostas a esses tipos de discriminação são mais vulneráveis à depressão e efeitos sociais, como dificuldade financeira e isolamento social, o qual pode aumentar a tendência ao sedentarismo, de comer como forma de recompensa e pode contribuir mais ainda para a obesidade. Isso pode causar um grande sofrimento e qualidade de vida ruim.

Estudos no meio escolar mostram que muitas as crianças têm preconceitos com relação às crianças obesas, classificando-as de feias, preguiçosas, infelizes e com poucos amigos. No meio acadêmico existem evidências de preconceito particularmente em cursos da área da saúde, como medicina, enfermagem e psicologia. No meio corporativo, os trabalhadores obesos podem ser considerados como sendo menos competentes, sem auto-disciplina, sem força-de-vontade ou sem capacidade para atingir objetivos e metas.

Piadas de gordo são comuns na mídia. Atores obesos frequentemente representam personagens engraçados, atrapalhados, patéticos, indisciplinados ou inconvenientes. Dificilmente um ator obeso representa o papel de um herói. Até mesmo nos desenhos infantis os personagens obesos têm esse estigma.

Uma das explicações da existência desse estigma social da obesidade vem da teoria da atribuição, a qual sugere que as pessoas têm a tendência de tentar explicar ou atribuir causas para as características e comportamentos dos outros. Com isso, um estigma social é a representação das percepções negativas da sociedade com relação a determinado grupo social.

Apesar de existir uma grande quantidade de evidências que mostram que a obesidade decorre de complexas interações biológicas e ambientais, existe uma crença geral de que as pessoas gordas são responsáveis por sua condição e que o ganho ou a perda de peso depende principalmente do controle voluntário. Sobe essa perspectiva, as pessoas obesas seriam culpadas pelo seu peso, por não terem autodisciplina.

Curiosamente, mesmo com tantas evidências de que as tentativas de controlar o peso são infrutíferas na maioria dos casos, essa crença continua presente, até mesmo dentre as pessoas que estão acima do peso, que muitas vezes fazem dietas rigorosas e tentam perder peso rapidamente, o que pode desenvolver resistência para perder peso.

A atual epidemia de obesidade decorre principalmente da predisposição genética e das influências ambientais. Não se pode simplesmente culpar as pessoas por estarem obesas. Milhões de anos de evolução natural em ambientes hostis favoreceram a adaptação genética que permitiu que os seres humanos sobrevivessem durante grandes períodos de carência de alimentos. O atual ambiente farto de alimentos calóricos e que não exige gasto energético fez com que essa aquisição genética se tornasse uma desvantagem. Podemos concluir, portanto, que a luta contra a obesidade deve ser centrada no ambiente e não no indivíduo. Apesar disso, a crença geral é de que a culpa é da pessoa.

Um interessante estudo mostrou que os estigmas sociais que associam a causa do problema com o comportamento do indivíduo, como a AIDS e a obesidade, provocam menos sentimentos de simpatia do que os estigmas que não associam a causa do problema com o comportamento do indivíduo, como cegueira, câncer e paraplegia. Essa evidência ajuda a explicar a grande discriminação social contra os obesos.

Além disso, sabe-se que a obesidade é mais frequente nas classes socioeconômicas mais baixas do que nas mais altas. Esse fato ocorre em diversos países e transcende culturas. Dente os fatores que explicam essa associação, podemos citar que as pessoas das classes mais altas têm mais acesso a informações sobre saúde, maior preocupação com relação à própria saúde, maior poder aquisitivo de produtos e consequente consumo de alimentos mais nutritivos, como frutas e verduras. Essa relação também pode explicar parte da discriminação que existe para com os obesos, associando a imagem de pessoas obesas com menor capacidade profissional, como de pessoas magras com status social e poder, algo muito comum em nossa cultura da imagem.

Um interessante estudo evidenciou que 24% das mulheres e 17% dos homens trocariam três anos ou mais de suas vidas para terem o peso que desejam. Alguns participantes assumem o enorme risco de fumar devido à expectativa de manterem-se magros e algumas mulheres disseram que não querem ter filhos devido o medo de engordar com a gravidez. Isso mostra que esse estigma da obesidade prejudica até mesmo as pessoas que não são obesas. Não é à toa que tem aumentado a frequência de transtornos alimentares em adolescentes, principalmente meninas.

Entender as origens do preconceito contra os obesos é a chave para se lidar com esse problema. Um estudo com crianças mostrou que o ensino de que a obesidade tem diversos fatores causais que não estão sob controle do indivíduo ajudou a melhorar as atitudes dos colegas de classe, com aumento da empatia pelas crianças obesas.

As pessoas tendem a ser influenciadas pelas atitudes de grupos de pessoas que elas admiram. Desta forma, é fundamental que sejamos intolerantes com o preconceito relacionado à obesidade, principalmente quando se trata de pessoas formadoras de opinião. Com isso, contribuiremos com nossa parte para promover a aceitação das diferenças individuais e inclusão social.

Referência: Puhl, RM and Browell, KD. Psychosocial origins of obesity stigma: toward changing a powerful and pervasive bias. Obes Rev. 2003;4:213-227.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

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