O que é restrição alimentar cognitiva

28 de outubro de 2012
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Mulher com fita métrica em volta da bocaRestrição alimentar cognitiva é um termo usado na Psicologia que indica a tendência da pessoa inibir voluntariamente a ingestão de alimentos e comer menos do que o desejado para tentar perder ou manter o peso.

Pessoas com anorexia nervosa, por exemplo, têm um alto grau de restrição alimentar cognitiva, exercendo um controle extremamente rígido sobre o consumo de alimentos e a ingestão calórica, mantendo um índice de massa corporal (IMC) baixo por anos consecutivos.

Por outro lado, estudos transversais (que identificam a associação entre fenômenos sem conclusões sobre nexo de causalidade) mostram que existe correlação entre restrição alimentar cognitiva e índice de massa corpórea. Em outras palavras, maiores graus de restrição cognitiva são encontrados em pessoas mais gordas.

Esta aparente contradição pode ser explicada pelo fato de que pessoas com tendência à obesidade são mais expostas à discriminação social contra a obesidade e tendem a ter mais comportamento restritivo alimentar do que as pessoas que não têm tendência à obesidade. Ou seja, estas pessoas fazem mais dietas restritivas.

Em nossa sociedade a aparência física é um fator mais importante para as mulheres do que para os homens e não é à toa que alguns estudos mostraram uma associação mais forte entre a obesidade e a restrição alimentar cognitiva em mulheres do que em homens.

Um fato interessante é que diversos estudos não conseguiram mostrar relação entre a restrição alimentar cognitiva e a quantidade de calorias ingeridas. Como é de se esperar, essa luta constante para comer menos e perder peso é infrutífera para a maioria das pessoas e consiste em tentativas em vão que nunca conseguem ser colocadas em prática. Em outras palavras, as pessoas obesas fazem mais dieta, têm maior grau de restrição cognitiva, mas frequentemente não conseguem emagrecer.

De fato, uma restrição alimentar importante pode alterar o metabolismo e fazer com que a pessoa desenvolva uma resistência para perder peso ou até mesmo um aumento da tendência de ganhar peso. Por esse motivo ela é considerada um padrão alimentar relacionado à obesidade.

Além disso, tem-se mostrado que pessoas com alto grau de restrição cognitiva tendem a comer descontroladamente quando estão expostas a determinados fatores psicológicos (estresse, depressão) ou ambientais (festas, banquetes, eventos sociais, uso de bebidas alcoólicas). Isso pode fazer com que estas pessoas acabem comendo mais do que pessoas com menor grau de restrição alimentar cognitiva.

Estudos longitudinais (nos quais um grupo de pessoas são acompanhados por um período de tempo) mostram que pessoas obesas que fazem dietas restritivas frequentemente não conseguem emagrecer e às vezes até engordam mais, principalmente as mulheres. Por outro lado, pessoas com peso normal em geral não têm tanto risco de ganhar peso com dietas restritivas. Desta forma, essa estratégia parece ser mais adequada para a manutenção do peso de pessoas com peso normal e tendência para engordar.

Essa incongruência (dietas restritivas funcionam mais para quem não é gordo) pode ser explicada pelo fato de que existem dois tipos de restrição cognitiva, que afetam o comportamento alimentar de formas distintas.

O controle flexível está associado com menor ingestão energética, expectativas de perda de peso moderadas e realistas e atitudes menos drásticas quanto ao consumo de alimentos. Já o controle rígido está associado com episódios de perda de controle sobre o consumo de alimentos (compulsão alimentar), ganho de peso e geralmente acompanha problemas psicológicos e relacionados ao estresse.

A literatura médica mostra que, em pessoas com transtornos alimentares, os efeitos deletérios da restrição cognitiva rígida são mediados pela desinibição. Essas pessoas têm maior tendência a ganhar peso quando a restrição cognitiva é acompanhada de episódios de perda de controle, como comer muito quando está sob estresse (o chamado comer emocional ou fome emocional) e episódios de compulsão alimentar.

Referências:

Adami, GF. Feeding Behavior and Body Mass Index. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, 2011. p. 891-910.

Bellisle, F and Dalix A. Cognitive restraint can be offset by distraction, leading to increased meal intake in women. Am J Clin Nutr 2001;74:197–200.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

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