Nossa alimentação influencia nossos genes?

16 de junho de 2012
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O Projeto Genoma Humano descobriu que temos “apenas” 30 mil genes (bem menos que os 2 milhões que se acreditava na década de 60). Por outro lado, esses genes representam menos de 2% do DNA de nossas células!

Esses números nos intrigam, pois temos tantas características diferentes, sejam físicas ou comportamentais, que é difícil acreditar que apenas 30 mil genes possam orquestrar tudo. Além disso, e os outros 98% do nosso DNA? Para quê servem?

Uma área relativamente nova da ciência, chamada Epigenética (palavra derivada do grego que significa “além da genética”), descobriu que o restante do DNA das células tem o papel de regular, por meio de alterações químicas, o uso dos genes pelo nosso organismo (expressão genética), além de formar a estrutura dos cromossomos.

A Epigenética estuda como o ambiente e a história do indivíduo influenciam a expressão genética, sem alteração da sequência do DNA.

Um desses processos, chamado metilação do DNA, define quais genes são ativos e quais não são. Desta forma, a célula pode usar somente uma parte dos genes para produzir as proteínas que precisa e não usar o restante. O conjunto dessas marcações no DNA é chamado de código epigenético ou epigenoma.

O mais interessante disso tudo é que a metilação do DNA sofre influência da alimentação, do comportamento, dos aspectos psicológicos, do estilo de vida e do ambiente. Essa influência ocorre por meio de sinais dentro da célula, gerados por receptores que ficam em sua superfície, em resposta a diversos estímulos ambientais.

Sabe-se, por exemplo, que algumas deficiências nutricionais na mãe durante a gestação podem aumentar a tendência do filho a ter diabetes, obesidade e doenças cardíacas ao longo de sua vida. Acredita-se que essa influência possa ser explicada por alterações epigenéticas. As células do embrião marcam o DNA, “programando” o corpo para encontrar um ambiente deficiente em nutrientes. Ao nascer e se desenvolver, encontra outro totalmente diferente, repleto de fast foods!

A boa notícia é que estas alterações no DNA são reversíveis, o que ajuda a explicar porque influências ambientais, como alterações no estilo de vida, podem aumentar ou diminuir a tendência a se desenvolver certas doenças.

A Epigenética abre portas não somente para entender como estes mecanismos funcionam, mas também para influenciar ativamente a expressão dos genes. Com isso, uma outra nova área da ciência, chamada Nutrigenômica, está nascendo e prometendo abrir mais portas para desvendar esta tão complexa interação entre genes e ambiente.

Referência: McGowman, PO et al. Epigenetics, Phenotype, Diet, and Behavior. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, p. 17-31.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

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