Meu filho não quer comer nada diferente

9 de agosto de 2012
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A preferência pelo sabor doce ocorre desde o nascimento. A tendência das crianças gostarem mais de alimentos doces e gordurosos em detrimento dos vegetais é um fenômeno universal e transcende as culturas.

Essa predileção inata por alimentos doces pode ser uma resposta adaptativa vantajosa. O sabor doce sinaliza a presença de açúcares e, portanto, valor calórico alto e imediato. Por outro lado, os sabores azedo e amargo às vezes são indicativos da presença de substâncias tóxicas e decomposição dos alimentos que devem ser evitados.

Crianças mais velhas frequentemente são mimadas com comida, particularmente se elas nunca experimentaram o alimento anteriormente. Esse comportamento chama-se neofobia (neo = novo; fobia = medo, aversão) e pode ter sido outra resposta adaptativa adquirida ao longo da evolução do ser humano onívoro (que come de tudo). Essa teoria afirma que é provável que as crianças dos povos primitivos que só comiam o que conheciam e evitavam experimentar coisas novas que encontravam na natureza tinham menos risco de comer algo venenoso ou que fizesse mal. Desta forma, a neofobia ilustra o processo de aprendizado das crianças com relação ao que é seguro comer ou não.

O problema é que, por mais que possa ter uma origem lógica na evolução humana, esse comportamento faz com que diversas crianças tenham comportamentos alimentares não saudáveis, como o hábito de comer uma variedade muito limitada de alimentos, como biscoitos, por exemplo.

Normalmente as crianças com menos de dois anos não costumam ter neofobia. A partir dos dois anos esse hábito pode se desenvolver, tendo um pico aos 4 anos de idade. Com o passar dos anos o indivíduo tende a diminuir a neofobia até a idade adulta. Porém, muitos indivíduos idosos podem voltar a desenvolver hábitos alimentares mais restritos.

Sabe-se que uma das formas de desenvolvimento das preferências é por meio do aprendizado sabor-sabor, onde um novo sabor é associado a um sabor já conhecido, associando-se à sua predileção ou aversão. Isso pode contribuir para a aversão cada vez maior por alimentos novos, caso a criança entre em um círculo vicioso de neofobia. Por outro lado, esse processo também pode ser usado em práticas lúdicas onde diversos tipos de alimentos são provados com o objetivo de despertar a o interesse e curiosidade das crianças.

Mas esse comportamento de evitar experimentar alimentos novos não ocorre só em crianças. Em adultos, a neofobia ocorre mais em pessoas com traços de personalidade relacionados com a ansiedade e menos em pessoas com tendência de experimentar novas sensações em geral. Como ambos os traços parecem ter influências genéticas, é possível que o comportamento neofóbico também possa ser herdado.

Referências:

Richardson, P and Saliba, A. Acquired Tastes: Establishing Food (Dis-)Likes by Flavour–Flavour Learning. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, 2011. p. 85-97.

Alley, TR and Potter, KA. Food Neophobia and Sensation Seeking. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, 2011. p. 707-724.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

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