Alimentos e serotonina

21 de agosto de 2012
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Alimentos e serotoninaAlguns aminoácidos da nossa dieta têm efeitos nas nossas funções cerebrais. Os aminoácidos são as moléculas que compõem as proteínas. O aminoácido triptofano, por exemplo, é usado pelo nosso organismo para produzir uma substância chamada serotonina. A serotonina é um neurotransmissor, ou seja, é uma molécula usada pelas células de nosso cérebro (os neurônios) para se comunicarem entre si. Sabe-se que diminuição da serotonina normalmente ocorre em pessoas com distúrbios do sono e com transtornos do humor, como a depressão.

Sabe-se também que o consumo de carboidratos (açúcares e amidos) aumenta a secreção do hormônio insulina pelo pâncreas. Por sua vez, a insulina promove a entrada de glicose e aminoácidos nas células do corpo. Entretanto, como triptofano em geral fica ligado a proteínas do sangue, ele entra menos nas células e sua quantidade acaba aumentando no sangue em relação aos outros aminoácidos. Esse aumento relativo da quantidade de triptofano no sangue faz com que o cérebro (que não depende da insulina para captar moléculas do sangue), capte mais triptofano e aumente a produção de serotonina.

Esse é um dos motivos pelos quais os doces dão uma sensação de bem-estar nas pessoas em geral e ajuda a explicar porque as pessoas com depressão tendem a comer mais doces que pessoas sem depressão. A ingestão de carboidratos pelas pessoas deprimidas pode ser uma forma de aumentar temporariamente a quantidade de serotonina cerebral e aliviar os sintomas depressivos. De fato, os medicamentos antidepressivos que aumentam a quantidade de serotonina cerebral costumam ter o efeito de diminuição do apetite.

É conhecido o fato de que pessoas que fazem dietas pobres em carboidrato costumam queixar-se de mau humor, insônia e de sintomas depressivos. O que pode explicar isso é o fato de a dieta rica em proteínas aumenta a quantidade de todos os aminoácidos no sangue. Como o triptofano não é um aminoácido abundante nos alimentos, sua concentração relativa (proporcionalmente aos outros aminoácidos) permanece baixa. Como os aminoácidos competem entre si para entrar no cérebro, não há aumento da entrada de triptofano e não há aumento da produção de serotonina.

Até o presente momento não existe evidência suficiente de que os aminoácidos possam ser usados isoladamente na dieta para melhorar os sintomas de transtornos do humor. Entretanto, a compreensão dos mecanismos pelos quais nosso organismo utiliza os nutrientes permite desvendarmos os mistérios que existem por trás do uso (consciente ou inconsciente) da alimentação como forma de regulação de funções específicas de nosso corpo.

Referência: Rintamäki, R and Partonen, T. Dietary Amino Acids and Mood. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, 2011. p. 565-576.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

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