Alimentação para a memória

18 de agosto de 2012
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alimentação para a memóriaNossas funções cognitivas nos permitem entender e agir sobre o ambiente que nos cerca. Essas funções incluem a capacidade de captar informações de nosso ambiente (atenção), armazená-las (memória) e organizar essas informações (raciocínio).

A memória pode ser classificada em memória do trabalho, que é a memória de curto prazo que usamos para as tarefas do dia-a-dia, como lembrar de um nome ou um número por um curto período de tempo, apenas para que possamos usá-lo em seguida; memória declarativa ou explícita, que é composta das lembranças de fatos e experiências pessoais; e memória não declarativa ou implícita, que é aquela que adquirimos por meio de condicionamento e desenvolvimento de habilidades. Por ser mais fácil de ser testada, a memória do trabalho tem é usada mais frequentemente em estudos sobre funções cognitivas.

Diversos estudos têm sido feitos com o objetivo de se entender o efeito dos macronutrientes (carboidratos, proteínas e gorduras) nas funções cognitivas. Um dos focos desses estudos foi o de entender a importância da primeira refeição do dia no desempenho das atividades intelectuais.

Estudos realizados no final da década de 90 mostraram que as crianças que recebiam café da manhã na escola tiravam melhores notas. Entretanto, revisões destes estudos mostraram que os programas de inclusão de café da manhã nas escolas também diminuiu as faltas das crianças nas escolas, o que pode ter contribuído para o resultado nas notas. Estes resultados levantaram dúvidas, na época, sobre a real importância do café da manhã.

Hoje considera-se o consumo regular de café da manhã com alimentos nutritivos (como alimentos feitos com grãos integrais, frutas frescas e laticínios) um hábito saudável não somente para o bom desempenho das atividades cerebrais, mas também para o bem-estar e para o controle da obesidade.

Outro foco dos estudos foi o de se determinar quais macronutrientes são os mais importantes para a atividade cerebral.

Com relação aos carboidratos, estudos sugerem que alimentos com alto índice glicêmico (ou seja, que aumentam rapidamente a quantidade de glicose do sangue), como doces e massas feitas a partir de farinha refinada, não são benéficos para atividades cognitivas, além de estarem associados a maior risco de doenças cardiovasculares.

O mecanismo pelo qual esse fenômeno ocorre não é bem compreendido. Sabe-se que a quantidade de glicose no cérebro é controlada por transportadores específicos e que células do cérebro chamadas astrócitos (que significa células em forma de estrela) são responsáveis pelo metabolismo da glicose, convertendo-a em lactato e liberando-o para uso pelos neurônios. Acredita-se que o aumento da glicose no sangue interfira com esse controle, tanto aguda como cronicamente, o que poderia explicar os resultados de estudos que mostram pior desempenho cognitivo em pessoas com diabetes.

Quanto às gorduras, acredita-se que o próprio processo evolutivo da espécie humana trouxe necessidades especiais, devido ao tamanho de nosso cérebro. Além disso, estudos epidemiológicos relacionam o consumo de óleo de peixe (que é rico em ácidos graxos poliinsaturados de cadeia longa) com menor incidência de demência. Entretanto, esse tipo de evidência não nos permite determinar conclusões de causa e efeito, de forma que outros estudos precisam confirmar estes achados.

Com relação às proteínas, acredita-se que seu conteúdo nas refeições e sua proporção em relação aos carboidratos possa ter efeitos no humor e no sono.

Referência: Dye, L et al. Meal Composition and Cognitive Function. In: Preedy VR et al., editor. Handbook of behavior, food and nutrition. New York: Springer, 2011. p. 547-563.

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Eduardo Bellotto

Sobre Eduardo Bellotto

Sou Médico Nefrologista formado na Universidade Federal de São Paulo e tenho muito interesse em estudar, entender e compartilhar conhecimento sobre os principais problemas que afetam as pessoas nos dias atuais, particularmente aqueles relacionados ao estilo de vida contemporâneo, como a obesidade, o diabetes e a hipertensão.

2 Responses to Alimentação para a memória

  1. Ana Lúcia Ippolito Carbonell on 28 de agosto de 2012 at 6:16

    Oi, Bellotto.
    Parabéns pela iniciativa e qualidade do conteúdo. O que mais se carece hoje é de fontes de informação confiáveis e criativas. Nada melhor que ler e criar novos impulsos que nos ajudem a tecer saúde!
    Abraços
    Ana

  2. Eduardo Bellotto
    Eduardo Bellotto on 28 de agosto de 2012 at 18:50

    Obrigado pelo apoio Ana Lúcia!

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